A primeira vez que Wilson Simonal pisou em um estúdio foi em 24 de novembro de 1961, cantando o calipso “Biquínis e Borboletas”, de Fernando César, e o cha-cha-cha “Terezinha”, que Carlos Imperial compôs especialmente para o cantor.

Com seu próprio 78RPM nas lojas, conseguiu um emprego de crooner no Conjunto Sete de Ouros e, pouco tempo depois, entrou para a banda da badalada boate Drink, ao lado de Miltinho, Djalma Ferreira e Silvio César. Dali a pouco, arranjou um emprego melhor, no elegante Top Club do folclórico Barão Maximilian Von Stuckart.

Depois de anos de batalha, finalmente Wilson Simonal estava vivendo de música. Mas era um crooner, cantando para as pessoas dançarem com uma voz impressionante e carisma evidente e com pouco espaço para imprimir uma marca pessoal.

Foi quando Ronaldo Bôscoli e Luiz Carlos Miéle o procuraram nos bastidores do Top Club e o convidaram para trocar o certo pelo duvidoso e deixar-se produzir pela dupla em um show próprio, no Beco das Garrafas.

O Beco era uma rua sem saída em Copacabana com enorme movimento boêmio por causa de quatro boates – o Little Club, o Bottle’s, o Baccará e o Ma Griffe, surgidas no final dos anos 50. A rigor, quando Simonal pegou o microfone para cantar pela primeira vez no Beco das Garrafas, ele deixava a condição crooner profissional para se tornar uma virtuose de um instrumento raro no Beco: a voz.

Quando voltou ao estúdio, Simonal já tinha “algo mais”, de fato, para registrar. Foram quatro discos em 1963, entre single, 78RPM, EP e seu primeiro LP. Havia espaço para um clássico do blues como “Walk Right in”, para composições de seus amigos do Beco, para companheiros do circuito de boates, como Silvio César e Carlos Cruz, e para colegas de geração como Marcos Valle. O mesmo repertório testado durante tantas noites no Little Club. “Balanço Zona Sul” foi o principal sucesso de Wilson Simonal em seus anos iniciais, com um arranjo de delicada poesia equilibrando o tom voyeurístico da letra.

Miéle e Bôscoli aproveitaram essa evidente fase de ascensão e produziram um show para teatro – provavelmente o primeiro show para teatros da música brasileira, com roteiro, cenário, iluminação e conceito de “show”. Era Quem tem Bossa Vai a Rosa, no Teatro Santa Rosa, em Ipanema, com o Bossa Três e Marli Tavares. A repercussão do show (que arrastou até Astor Piazzolla e seu conjunto para uma participação especial num interlúdio do show), levou Simonal e o Bossa Três para uma excursão de 40 dias pela Colômbia.

Na volta, a TV Tupi de São Paulo procurou o cantor para que ele apresentasse um novo programa musical chamado Spotlight. Para dirigir programa, foi escolhido, Abelardo Figueiredo, a maior autoridade em transpor a música para a tela, famoso por programas, como Folias Philips e Noite de Gala. A Rhodia também passou a patrocinar os shows de Simonal – que, naturalmente, tomou para si a imagem de bom gosto e elegância.

Com todo esse cenário favorável, até que o single com “Nanã” e “Lobo Bobo”, lançado em julho de 1964, não chega a espantar pela maturidade, segurança e ousadia. Ambas as canções eram clássicos recentes do que se chamava de “moderna música brasileira”.

Seu LP seguinte, A Nova Dimensão do Samba, é tido como um marco da música brasileira pós-bossa nova, porque cumpre todos os seus preceitos de refinamento, e ao mesmo tempo o transgride em arranjos de tirar o fôlego e um cantor sem medo de improvisar nos scats e nas notas longas e abusar de sua caixa torácica.

Ao longo de seus trabalhos seguintes, Simonal foi burilando seu estilo, mostrando sua verdadeira personalidade como artista e gravando álbuns cada vez mais espantosos em termos de interpretação e arranjo. Esse processo atingiru seu ápice em S’imbora, de novembro de 1965.

Com o fim da temporada prevista para o Spotlight, a TV Record de São Paulo passou a flertar com a possibilidade de levar Simonal para sua nova linha de shows encabeçada pelo Fino da Bossa. Em dezembro de 1965, durante uma viagem de Elis Regina e Jair Rodrigues à Europa, Wilson Simonal foi convidado a assumir, interinamente, o Fino. Logo depois, seria contratado como artista exclusivo da TV Record.

Simonal vinha de seu primeiro grande sucesso popular, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”. A letra era uma bobagem deliciosa sobre o machismo latino inventada por Carlos Imperial com participação não creditada de Eduardo Araujo: “eu sei que tenho/ muitas garotas/ todas gamadinhas por mim (...) eu era neném/ não tinha talco/ mamãe passou açúcar em mim”. Menos de dois minutos de festa, ali a carreira de Wilson Simonal tomava outro rumo.

Show em Simonal estreou em junho de 1966. Os velhos amigos Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli estavam na equipe de criação, junto com gente como Chico Anysio e Jô Soares. De saída, o programa se destacou por seu despreconceito legítimo, em tempos em que os territórios da música brasileira eram demarcados com rigidez. Era transmitido pela Record em São Paulo aos domingos. Em seguida, por uma série de emissoras regionais que recebiam o videoteipe alimentando uma cadeia nacional de sucesso massivo. Esse contato direto com o mainstream acelerou o processo de popularização de sua música iniciado em “Mamãe Passou Açúcar em Mim”.

Simonal e o Som Três entraram juntos em estúdio pela primeira vez no dia 2 de setembro de 1966. Na pauta, outra composição de Carlos Imperial, “Carango”, desta vez em parceria com o maranhense Nonato Buzar. Com seu arranjo extremamente enxuto e uma letra falando de carros como o iê-iê-iê de Roberto e Erasmo, foi outro sucesso nacional. O caminho do grande público fora descoberto. Até então, tudo o que tocava nos clubes jovens era o beat inglês, o soul da Motown americana e quase nada de música brasileira – Simonal sabia que poderia intervir nisso.

Além da imensa exposição nacional – que revertia numa média de uma centena de shows por ano, por todo o país – o Show em Simonal permitiu que o cantor lapidasse o que se tornou sua maior marca registrada: o domínio do público. Boa parte do novo repertório surgiu nesse cenário de interação com a platéia e o apelo popular. Como o programa era gravado, havia obrigatoriamente um intervalo, para as trocas dos videoteipes. Enquanto a maior parte dos artistas usava desse tempo para retocar o penteado ou descansar, Simonal ia ao microfone brincar com o público. Assim, “Meu Limão, Meu Limoeiro” se tornou um hit no programa e foi incluída no primeiro LP de Simonal ao lado do Som Três, Vou Deixar Cair..., e tornou-se estopim de um novo rótulo: a pilantragem.

Na verdade, tudo o que Simonal cantava, falava ou sugeria se espalhava com a velocidade de uma fita de vídeo atravessando o país. O empresário Roberto Colossi (que cuidava da carreira de Simonal, do Som Três e de Chico Buarque, entre outros), percebeu rapidamente o potencial do cantor e inventou, com a agência de publicidade Magaldi, Maia & Prósperi, o boneco Mug, um personagem de pano e olhos esbugalhados, preto, redondo e sem pescoço, que se transformou em febre no natal de 1966, vendido como “amuleto” para o ano seguinte. Simonal achava divertidíssimos os desdobramentos de marketing que sua nova posição de ídolo pop lhe atribuía. Foi logo levando o Mug para a capa de Vou Deixar Cair..., compondo uma canção para o bichinho (o “Samba do Mug”) e até batizando seu novo show, dirigido por Miéle e Bôscoli, de O Mug...nífico Simonal.

A temporada de O Mug...nífico no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, revelou um outro lado de Simonal para seu público, cada vez maior e mais variado. Durante uma passagem de som, o cantor chamou Cesar Mariano e mostrou, dedilhando o piano, um spiritual que compusera, algumas horas antes, com Ronaldo Bôscoli.

“Tributo a Martin Luther King” foi gravada em fevereiro de 1967, mas ficou presa na Censura até junho, quando finalmente foi lançada, em single de enorme sucesso. A versão ao vivo, incluída no álbum duplo Show em Simonal, com três mil pessoas no Teatro Paramount cantando coisas como “(para) cada negro que for/ mais um negro virá para lutar/ com sangue ou não/ com uma canção também se luta, irmão” é uma das coisas mais fortes da música popular brasileira desde sempre.

Alegria, Alegria!!! saiu em novembro de 1967 e era um disco que dava ao grande público exatamente o que esperava de Simonal. Com exceção de “Pra Que?”, de Sílvio César, e “Discussão”, diretamente conectadas com sua primeira fase, tudo em Alegria, Alegria!!! variava sobre o tema da pilantragem. Ela aparecia malandreando temas populares como “Pára Pedro” ou “Escravos de Jó” ou transformando velhos clássicos como “Agora é Cinza” e “Aos pés da Cruz” em itens pop tão representativos de sua época quanto uma luminária de Verner Panton.

Em 1968, estreou no Teatro Toneleros, no Rio de Janeiro, o show Horário Nobre. A associação televisiva era um gancho óbvio, mas o fato é que os espetáculos de Simonal e do Som Três cresciam em estrutura e se tornavam eventos obrigatórios para quem gostasse de música. Além do crescente rosário de sucessos, havia os esquetes humorísticos e as brincadeiras que podiam tanto surgir no teatro e seguir para a televisão, como fazer o caminho inverso. Um ano depois, o sucesso se repetiu (se ampliou, na verdade) com o De Cabral a Simonal, dirigdo por Oswaldo Loureiro. Até 1970, Simonal e o Som Três levariam sua música a Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Argentina, Colômbia e Peru.

Em abril de 1969, Simonal deixa a TV Record. Sem contrato de exclusividade, Simonal agora circula, onipresente, pelas diversas emissoras do país. Em julho, Sergio Mendes vem ao Brasil, patrocinado pela Shell, na turnê de seu disco Crystal Illusion, que encerrou uma impressionante quina de álbuns lançados nos Estados Unidos que manteve seu nome constantemente entre os 50 discos mais vendidos naquele país. O show, no ginásio do Macaracanãzinho foi organizado em cada detalhe para que o niteroiense ilustre voltasse para sua mansão em Beverly Hills consagrado. O show de abertura caberia a Simonal. O que aconteceu naquela noite ocuparia as manchetes dos jornais e entraria para o folclore pop brasileiro. O cantor, o Som Três e os “metais com champignon” fizeram exatamente o mesmo show que apresentavam no Teatro Bela Vista, em São Paulo. Simonal cantou seus sucessos dos tempos da pilantragem, brincou com a platéia, dividiu o Maracanãzinho em diversas vozes e comandou o que os jornais chamaram de “o maior coral do mundo”. Agradeceu aos aplausos e anunciou a grande atração da noite, o Brasil’66. Curvou-se novamente e tomou a direção dos camarins, sob aplausos. Aplausos que não cessavam. A platéia se insurgiu contra sua saída bradando seu nome: “Simonal!”, “Simonal!”, “Simonal!”... Em seu camarim, ao lado dos amigos do Som Três, Simonal ouvia a platéia e chorava, compulsivamente. Simonal chorou e se enervou até perder a consciência, brevemente. Foi reanimado e conduzido ao palco, onde fez um bis e perpetrou uma de suas frases mais históricas: “Agora os 10 mil da direita! Agora os 10 mil do meio! Agora os 10 mil da esquerda!”. A Shell o procurou imediatamente com um contrato de patrocínio sem precedentes na história do showbiz brasileiro.

A Shell era patrocinadora da Seleção Brasileira de Futebol que jogaria a Copa de 1970, no México, e estava investindo em eventos que reforçassem a imagem de excelência do Brasil. Por isso, trouxe Sergio Mendes, nosso maior popstar mundial. Em Simonal, um herói da classe trabalhadora transformado em superstar, um soulman que trafegava pela tradição e pela contemporaneidade, seu garoto-propaganda perfeito. O que foi chamado de “o maior contrato de todos os tempos” previa uma intensa campanha de marketing em revistas unindo a imagem de Simonal à seleção, shows por todo o país, atrações especiais mensais na TV e apresentações no México durante o campeonato mundial.

E, no que parecia ser o auge do estrelato, Simonal continuava subindo: em agosto de 1969, lançou aquele que seria, provavelmente, o maior sucesso de sua carreira, “País Tropical”, de Jorge Ben. Simonal repicou toda a letra original, excluindo estrofes inteiras, introduzindo menções ao slogan da Shell (“algo mais”) e uma segunda parte na qual as palavras são cantadas se valendo apenas de suas primeiras sílabas. “Moro/ num país tropical” virou “Mo’/ num pa’ tropi’”. Até hoje o termo “patropi” é usado como sinônimo para Brasil e uma canção despretensiosa sobre o homem-comum brasileiro se transformou numa bomba sonora que ainda hoje é sucesso em pistas de dança pelo mundo. Até Jorge Ben adotou a versão de Simona.

Em outubro, em mais um evento patrocinado pela multinacional, Simonal foi convidado para presidir o júri do V Festival Internacional da Canção. Àquela altura, a notícia de que o cantor havia “jantado o Sergio Mendes”, no mesmo Maracanãzinho, cruzara o país inteiro. Dessa vez, Simonal apresentaria seu show na final do festival, antes que as músicas vencedoras fossem anunciadas. De novo, 30 mil pessoas se dirigiram ao ginásio, desta vez carregando faixas e cartazes com o nome de Simonal. Quando sua voz ecoou no sistema de som do ginásio (“em homenagem à graça...” e o resto foi soterrado por aplausos), o jogo estava ganho. O cantor transformou em pilantragem “Cidade Maravilhosa”, regeu o “maior coral do mundo” e, de novo, tornou-se assunto nacional. O sucesso de seu show era tão certo que o diretor Domingos de Oliveira, de Todas as Mulheres do Mundo, deslocou toda sua equipe de cinema para registrar as primeiras tomadas de seu próximo longa-metragem, É Simonal.

No início da década de 1970, talvez apenas Roberto Carlos fizesse sombra ao sucesso de Wilson Simonal. Estava em todos os lugares. Nos catárticos e monstruosos shows em ginásios e estádios pelo Brasil, nos anúncios da Shell, no Som Livre Exportação da TV Globo, no Programa Flávio Cavalcanti da TV Tupi. Simonal estava nas rádios com a espantosa seqüência de sucessos “País tropical”, “Sá Marina”, “Que maravilha” e “Maquilagem”.

Ainda em 1970, a Shell traria Sarah Vaughan para participar de seu show em São Paulo. Durante os ensaios, estarrecida com um brasileiro cantando daquele jeito, “o maior talento vocal do mundo” segundo Ella Fitzgerald chegou para o produtor do show, Miéle, e cochichou: “será que você pode pedir pra ele me deixar improvisar um pouquinho nessa música também?”.

O Brasil mudava, a música popular se transformava, o mundo estava em convulsão. E, como sempre, Wilson Simonal conseguia enxergar somente a música. E, se havia algo em sua música marcante o suficiente para sinalizar com uma mudança, era o Som Três. No show Simona-Simonal, de dezembro de 1970, o cantor tocou com a Banda Veneno do maestro Erlon Chaves. Aproveitando o fim do contrato com a Shell e as mudanças de sua banda, Simonal decide associar-se ao “sultão dos artistas”, o empresário Marcos Lázaro, que imediatamente anunciou shows conjuntos com seus outros dois maiores nomes, Roberto Carlos e Elis Regina, pela Europa e África. Foram tempos de mudanças vindas de toda parte. Canções como “África África”, “O Mundo Igual de Cada Um”, “Moro no Fim da Rua” ou “A Tonga da Mironga do Kabuletê” revelam uma inquietação artística latente, o início de uma nova fase – muito do que se conheceria como Movimento Black Rio estava em gestação ali. Mas o segundo semestre de 1971, entretanto, abateria Wilson Simonal no meio de seu vôo mais arrojado.

Perto da meia-noite de 24 de agosto, Rafael Viviani (ex-chefe de escritório da Simonal Comunicações, demitido após nove meses de trabalho, quando o cantor descobriu um desfalque em suas contas) foi procurado por dois policiais. O contador foi conduzido pelos homens para um carro Opala – que, reconheceu, era de Simonal, dirigido pelo chofer particular do artista – e, de lá para uma delegacia do DOPS, o temível Departamento de Ordem Política e Social, órgão repressor oficial da ditadura militar. Depois de horas, Viviani foi “convencido” pelos policiais a assinar uma confissão de responsabilidade por um desfalque de 100 mil cruzeiros. O contador só foi liberado na manhã do dia 26. No mesmo dia, foi à 13a DP em Copacabana prestar queixa contra Wilson Simonal por ordenar seu seqüestro e por constrangê-lo ilegalmente.

Dois dias depois, quando foi chamado para esclarecimentos, Simonal chegou à delegacia confiante, sorrindo e posando para fotos. Negou ser o mandante do seqüestro e disse que apenas havia emprestado seu carro particular para que a operação fosse a mais discreta o possível, em consideração à família do contador. Após uma rápida acareação, Simonal pediu para registrar uma denúncia em sigilo, porque, imaginava, iria “revelar fatos ligados à Segurança Nacional”. Declarou que, após demitir Viviani, sua família passou a ser vítima de telefonemas ameaçadores, que falavam em terrorismo e extorsão. Como credencial de sua dignidade definiu-se ao delegado, como um homem “de direita”, com “serviços prestados à Revolução de 1964”. O depoimento de Simonal era tão ingênuo que o delegado Ivã Santos não viu “razão para o sigilo pedido” e liberou a transcrição para a imprensa. No dia seguinte, a manchete do Jornal do Brasil, o maior jornal do país da época, foi a seguinte: “Simonal acusa subversivos e se diz ‘de direita’ com bons serviços à Revolução”. Era uma meia-verdade: mesmo que se orgulhasse de seu passado de militar e de suas amizades com “os homens”, Simonal também apresentava a convenção nacional do MDB, levava dinheiro aos artistas exilados na Europa e gravava Geraldo Vandré. Cheio de si, Simonal escolheu a metade errada da verdade.

Por causa da violência contra o contador, o cantor caiu em desgraça com a imprensa sensacionalista. Sua tática de se dizer “de direita” lhe custou a credibilidade junto à imprensa séria. Rapidamente, Simonal viu todas as portas sendo fechadas. Em 7 de setembro, O Pasquim publicou charge de meia página com um dedo negro apontando para a direita, identificado como “o magnífico e erecto dedo de Simonal (...), hoje muito mais famoso do que sua voz.” A imprensa, odiosa da fase mais violenta da ditadura e cronicamente farta do sucesso de Simonal, comprou o boato – o que levou o cantor a morrer dizendo que foi vítima de uma campanha orquestrada por profissionais da publicidade. A partir daí, o caso, que nada tinha a ver com delação, ganhou proporções de lenda urbana. Dali a um ano, durante as investigações sobre o caso de seqüestro, o inspetor Mário Borges (chefe de serviço de buscas ostensivas do DOPS no Rio de Janeiro) foi chamado a esclarecer como poderia ter permitido que uma questão particular de um cantor popular fosse resolvida nas dependências de um órgão público. Borges, que, se condenado, poderia ser afastado do cargo e até preso, declarou que imaginava que Viviani fosse mesmo um terrorista porque Simonal seria, havia “muito tempo, informante do DOPS e de outros órgãos policiais, tendo fornecido várias vezes informações positivas sobre atividades subversivas”. Seu depoimento constou nos autos e grassou pela imprensa. O delegado, que entre 1966 e 1973 amealhou nove denúncias de tortura, lançou mão de um boato que se espalhava como um vírus por todo o país e foi inocentado. A imprensa, faminta, teve então a “prova” que esperava para relegar o maior cantor do país ao ostracismo. E o cidadão Wilson Simonal de Castro, 33 anos, que havia poucos meses fazia 30 mil pessoas cantarem “País Tropical”, foi expulso do showbiz brasileiro de maneira como jamais se viu em qualquer lugar do mundo.

A música brasileira é repleta de casos de heróis esquecidos, de reversos da fama, de desmemória compulsiva. Entretanto, o caso de Wilson Simonal é, de longe, o mais gritante, simbólico e aterrorizante. E não só pelo esforço em “lima-lo” da História, mas pelas circunstâncias que cercam sua queda. Após 1972, calou-se a voz do homem e calou-se a voz de parte significativa de nossa história.

Simonal deixou o elenco da Odeon no final de 1971, por conta de uma sedutora proposta da Philips. Em sua própria nova companhia, cheia de recém-egressos do exílio como Caetano, Gil, Chico e Nara, ele era visto como alguém à direita, ali escalado justamente para um suposto equilíbrio político.

Em 1974, saiu a sentença do processo e Simonal se viu condenado a cinco anos e quatro meses de prisão pelo crime de extorsão. Chegou a ficar nove dias preso mas a defesa do artista recorreu a sentença numa instância superior. O resultado da apelação saiu em julho de 1976. Como o crime de extorsão foi desqualificado a pena foi fixada em seis meses que pode ser cumprida em liberdade devido a sua condição de réu primário.

Os discos que lançou nos anos 70, pela Philips e depois BMG, passaram despercebidos do grande público. Simonal era assunto constrangedor em rádios, televisões e jornais. Artistas, das mais variadas frentes ideológicas e musicais, se negavam a pisar em um mesmo programa que ele. Suas aparições públicas, quase sempre tensas e magoadas, rondavam os assuntos de acerto de contas, de injustiça, de respeito – quase nunca de música.

Durante os anos 90, enquanto o pop brasileiro redescobria a alegria de Jorge Ben (cuja voz mais famosa fora Simonal) e o soul-funk de Tim Maia, o cantor circulava pelas redações com documentos emitidos pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e pelo Centro de Inteligência do Exército, ambos declarando não haver registro de sua colaboração com o regime militar. Seu tempo era ocupado em tentar provar sua inocência e cuidar de sua saúde – fragilizada por conta de uma hepatite crônica que progrediu para cirrose. Seus últimos esforços musicais foram produções independentes, lançados em pequenas boates, em shows esporádicos ainda menores do que os dos tempos de Beco das Garrafas.

Wilson Simonal de Castro morreu de falência múltipla dos órgãos em decorrência de doença hepática, aos 62 anos em 25 de junho de 2000.

Ao longo dos anos seguintes, sua música veio, lentamente, à tona. As carreiras musicais de seus filhos, Wilson Simoninha e Max de Castro, serviram como oportunidade para que a imprensa voltasse a falar do “rei do swing”, do “primeiro soulman brasileiro” e revisse muitas de suas posições. Uma onda revisionista de samba rock disseminada pelas pistas de dança do Brasil, invariavelmente resvala em clássicos de Simonal como “Zazueira” ou “Moro no Fim da Rua”. Uma longa cena do filme Cidade de Deus apresentou “Nem Vem que Não Tem” a milhões de espectadores – dali, a canção chegou a um comercial de uma rede de lojas de móveis na Inglaterra. Sucessos como “Tributo a Martin Luther King”, “Sá Marina” ou “Menininha do Portão” entraram no repertório de jovens artistas. Seus velhos LPs da Odeon tornaram-se disputados por colecionadores em todo o mundo, em nichos que vão da bossa nova à black music passando pela música eletrônica.

Em 2009 estreou nos cinemas brasileiros o documentario "Simonal- Ninguem sabe o duro que dei" dirigido por Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer. O sucesso enorme do filme (o documentario mais assistido daquele ano e o terceiro da historia) desencadeou a "Simonalmania" (conforme definiu o jornal “O Globo). Uma grande demanda se formou para descobrir e curtir a musica do artista. De repente era como se Simonal nunca tivesse desaparecido. Seu nome e sua musica voltaram a fazer parte, com muita força, positivamente em todos os tipos de mídia (radio, tv, internet, jornais, revistas e etc) e nos corações de muitas pessoas. O processo de recuperação e redescoberta pessoal e musical estava finalmente consumado.

Assim no final ano, foi lançado em cd e dvd, "O Baile do Simonal" (EMI), uma homenagem musical dirigida por Wilson Simoninha e Max de Castro. Show gravado ao vivo com a participação de grandes nomes da musica popular brasileira interpretando musicas da obra de Simonal. A boa repercussão do projeto deu origem a uma bem sucedida tourne pelo Brasil em 2010, já prorrogada até 2011. Foi publicada tambem, pela editora Globo, a biografia "Nem vem que não tem - a vida e veneno de Wilson Simonal" escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre.

Entre as muitas novidades que ainda estão por vir, quarenta anos depois finalmente foi lançado pela primeira vez no Brasil e em cd o disco "Mexico 70" (que havia saído somente lá após a copa do mundo). O álbum traz sete gravações totalmente inéditas e outras cinco gravações raras lançadas originalmente em compacto na época.

Wilson Simoninha:          Max de Castro:
Contato para Shows: Tel: + 55 11 3068-9737 | 3081-1841 | shows@sdesamba.com.br
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