O Baile do Simonal – CD e DVD

Mais que homenagem, trata-se de uma festa. E isto por si só já é uma baita responsa: organizar um balaco regido pelo espírito de um intérprete e entertainer que entendia como pouquíssimos de diversão. Mas não teve tempo ruim na noite de 11 de agosto, no palco do Vivo Rio, no Rio de Janeiro: Wilson Simoninha e Max de Castro honraram a camisa, o DNA e o talento do pai com um showzão. O segredo deles? Não economizar no champinhom com caviar – aquela expressão que Wilson Simonal usava para definir o molho musical, com todos os recursos, truques de dinâmica e variações rítmicas usados para deixar tudo mais saboroso e refinado. Sem jamais deixar de falar direto no peito, na cintura e nas pernas da galera.
Apesar de centrado no universo de um intérprete – um dos maiores da concorridíssima música popular brasileira -, este DVD/CD tem na concepção musical sua maior estrela.

O jogo coletivo proposto por Max e Simoninha encanta em todos os arranjos, encontrando a medida exata entre a reverência às gravações do pai e a inovação. Claro, tudo só funciona graças ao time montado. Samuel Fraga (bateria), Robinho Tavares (baixo), Walmir Borges (guitarra e violão), Xuxa Levy (teclados, programações e flauta), Marcelo Maita (piano), Adilson Didão e Laércio da Costa (percussão), Ubaldo Versolato (sax-barítono e flauta), Josué dos Santos (sax-tenor), Will Boné (trombone), Daniel D’Alcântara e Walmir Gil (trompete e flugelhorn) merecem ter o nome citado aqui antes de todos os “canários” convidados. Afinal, são eles que garantem o baile e o espírito da coisa durante 18 das 20 músicas apresentadas no palco.

Os Paralamas do Sucesso e a Orquestra Imperial proporcionam um descansinho à superbanda residente. O trio liderado por Herbert Vianna traz seu naipe de metais e o tecladista João Fera para traçar com a competência habitual “Mustang Cor de Sangue”, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle (de quem já tinham gravado “Capitão de Indústria”, em 1996). A Orquestra vem com Domenico Lancelotti na bateria e mais quatro percussionistas, sendo um deles Wilson das Neves, ilustre referência rítmica (ao lado de Milton Banana e Edison Machado) de tudo que a noite pedia. Mas quem toma os holofotes é o trio Moreno + duas (as vocalistas Thalma de Freitas e Nina Becker). O filho de Caetano Veloso dança e sua o terninho no cha cha cha pilantra de Carlos Imperial “Terezinha”, que descamba empolgantemente para a disco music na segunda etapa.

O tom da festa é por aí mesmo: para dançar, mas sem seqüências previsíveis. A escolha dos intérpretes convidados foge da obviedade e garante ótimas surpresas. É o que acontece no caso de Péricles e Thiaguinho, do Exaltasamba, muito à vontade no acento latino proposto em “Na Galha do Cajueiro”. E também na contribuição de Rogério Flausino, em “Meia Volta (Ana Cristina)”, canção que abriu o histórico show de Simonal em 1969, instantaneamente entoada a 30 mil vozes. O vocalista do Jota Quest só conheceu a música de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar depois do convite de Max e Simoninha, mas parece que a escutava desde criancinha. Já o internacional Alexandre Pires impõe seu corte globalizado à clássica “Sá Marina” (também de A.A. e Tibério) sem deixar de fazer o povo todo cantar – e dançar.

Algumas presenças, porém, eram barbada. E elas fazem o esperado, a começar por Seu Jorge, que abre os trabalhos de “desenceramento” do assoalho em “País Tropical”. Marcelo D2, por sua vez, não tem como ser ortodoxo. Chega com figurino Blues Brothers (do filme com John Belushi) e insere seu “samba estilo Sabotage” (referência ao falecido rapper paulistano), “rap tipo Simonal” na clássica “Nem Vem Que Não Tem”, enquanto Marcelo Malta bota o Ramsey Lewis que guarda dentro de si para passear nas teclas do piano. Com pleno efeito – ou, na linguagem hip hop, “in full effect”.

Mesmo intérpretes com backgrounds semelhantes aparecem em caminhos diversos, o que só enriquece a experiência. Ed Motta bota pra quebrar com “Lobo Bobo”, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, nas regras do samba jazz, distante de desvios soul. Sandra de Sá, por sua vez, solta a voz na bossa “Balanço Zona Sul”, de Tito Madi.

Do povo do samba, Mart´nália canta pilantramente “Mamãe Passou Açúcar Em Mim”, sem alterar a letra (“eu sei que tenho muitas garotas/ todas gamadinhas por mim”), enquanto Diogo Nogueira evolui bem na gafieira instalada por “Está Chegando A Hora”. Não tem mais do mesmo: se Frejat joga “Vesti Azul” mais para o lado do rhythm’n’blues, Samuel Rosa, do Skank, crava a guitarra em “Carango”, com direito a solo roqueirão.

Não faltam aparentes contradições nos dribles estéticos do roteiro cheio de ginga. Fernanda Abreu, do país do suingue, está em casa com a zoação de Vinicius e Toquinho “A Tonga da Mironga do Kabuletê”. Caetano Veloso, por sua vez, tem missão dificílima diante de uma antiga composição própria, “Remelexo”, eternizada por Simonal em versão lapidar. Mas Caetano é Caetano – e, mesmo de óculos, para não esquecer a letra, extrai dos recôncavos do peito a emoção que só certas obras da juventude provocam.

Outro instante estelar é a aparição de Maria Rita, luminosamente vestida de azul para planar sobre “Que Maravilha”. Quase da família, a amiga de infância dos filhos de Simonal se adona do clássico de Jorge BenJor com naturalidade. Os anfitriões, como já era de se esperar, fazem a festa em seus números: Simoninha, com a segurança de sempre em “Aqui É o País do Futebol” e no gran finale com “Tributo a Martin Luther King”. Max, em dois momentos bem diversos: em “Meu Limão, Meu Limoeiro”, ele comanda a platéia à moda do pai, pedindo “meio tom acima pra ficar mais brilhante” e propondo novidades como “agora em reggae”. Na terna “Menininha do Portão”, ralenta o ritmo e esbanja elegância, sublinhada pelo solo de flugelhorn de Daniel Daniel D’Alcântara. Papai ficaria orgulhosão!

Lulu Santos, convidado que não pôde ir à festa, manda presente no CD: uma releitura pop inventiva de “Zazueira” (Jorge Ben).

Na seção de extras, o DVD traz registros dos ensaios, bastidores da gravação e depoimentos do elenco de artistas envolvidos no projeto. Há três opções de áudio (Estéreo PCM 2.0, Dolby Digital 5.1 e DTS 5.1) e ainda uma versão comentada por Max. Simoninha e pelo jornalista Ricardo Alexandre, autor da biografia do cantor e também do livreto da caixa Wilson Simonal na EMI, que será reeditada junto com a chegada do Baile do Simonal às lojas.

Créditos: Pedro Só

Wilson Simoninha:          Max de Castro:
Contato para Shows: Tel: + 55 11 3068-9737 | 3081-1841 | shows@sdesamba.com.br
^ Subir